Olá! A primeira postagem no blog, vamos lá.
Há alguns meses, viajei ao Rio de Janeiro. Dentro de uma livraria, um amigo querido veio a mim muito empolgado com um livro em suas mãos:
"Luísa, Luísa, lê esse livro, é melhor que qualquer livro de Antropologia!!"
 |
| Cia das Letras, divulgação |
Bem, com uma apelação dessas eu não podia deixar de lê-lo imediatamente. O livro era Bordados, da
Marjane Satrapi. Sim, a mesma de Persépolis (sua autobiografia, que virou filme). Na época, não tinha menor familiaridade com a autora, ainda não li suas outras obras, mas já sei que não posso deixá-las de lado. Não depois de ter lido Bordados. Em primeiro lugar, é ilustrado, um quadrinho. Ao contrário da Marília, que escreveu sobre outra obra do tipo no
Eu, minha tia e os cogumelos mágicos, não sou muito íntima de quadrinhos, mas fiquei com vontade de "quero mais".
 |
| Marjane Satrapi |
A autora é de origem iraniana e conta muitas de suas experiências nas suas obras. Bordados trata de uma tarde cotidiana em que várias mulheres, de idades diferentes, conversam e trocam experiências de vida, ao mesmo tempo em que tomam chá (e que os homens dormem). O termo "bordado" se refere a uma prática bem comum no país, para a proteção da honra das famílias de mulheres que não são mais fisicamente virgens. Ou seja, é a reconstituição do hímen, o bom e velho cabaço.
A conversa toma um rumo pouco esperado para quem vai ler sobre a vida de mulheres no Irã. É então que vemos outro lado da cultura iraniana que não aparece nos jornais ou encontramos facilmente na internet. O melhor é que tudo isso com uma linguagem muito prática e divertida, você lê rindo, se identificando e, melhor ainda, quebrando preconceitos.
O livro mostra várias versões de uma mesma cultura, variando de acordo com as mulheres que se encontram na sala, em torno do
samovar, e nas histórias por elas contadas. Nele há relatos de mulheres que não aceitam resignadamente as leis de seu país e de sua religião, procurando subterfúgios a fim de terem mais liberdade.
Não deve ser novidade que o machismo está muito presente naquela cultura. O engraçado é que quando pensamos num país como o Irã, que vive sob um regime político declaradamente machista, achamos que aquilo está muito distante de nós. Mas ao ler Bordados, vi muitos aspectos facilmente encontrados em um país como o nosso - tão longe de ser uma ditadura religiosa. Desde a auto repressão sexual feminina até a valorização de uma certa "reputação" das mulheres (não para todas as personagens, claro), os temas vão surgindo e nós, leitoras, vamos nos identificando.
Além disso, achei a ironia de Marjane, tanto nas conversas, quanto nas ilustrações, um barato. Ela é sutil e me fez parar, reler o texto e rir das personagens e de mim mesma várias vezes. Há um contraste muito bom entre elas, algumas mais tímidas e submissas, outras mais empoderadas e nada reprimidas. Claro que sou fã das mais livres e independentes, mas não me sinto totalmente como elas. No entanto, elas me fazem querer, cada vez mais, romper barreiras. Barreiras que estão não só a mim externas, mas internas também. Dessas que só nós mesmas podemos diminuir, diminuir até que não possamos mais vê-las. E contamos com personagens e autoras de livros como esse para nos ajudarem nisso.
Só mais uma coisa pra aumentar a curiosidade: a última frase é sensacional.
Ok, vou acrescentar uma nota: Após ter escrito esse texto, assisti ao filme Persépolis, que trata de sua biografia, ilustrada pela própria Marjane. É muito bom, maravilhoso, sensacional, emocionante. Talvez esteja sensível, mas chorei muito (e ri também). Assistam, ou leiam o livro, ou os dois, vale tudo. Só não podem perder.
Update: no mês de Março, o Mulher Alternativa vai fazer, como todo ano, um concurso cultural para celebrar a luta pelos direitos das mulheres! Fiquem ligadas, pois vocês podem ser as felizes ganhadoras de um exemplar de "Bordados" e de um DVD de "Persépolis"!