27 Maio, 2012

Rainha da Bateria [repost Biscate Social Club]

Vânia Flor, musa do Salgueiro (foto: UOL)
[texto originalmente publicado no Biscate Social Club, em 10/02/2012]

Um dia ela quis.

A família foi contra. Nem ligava, ela iria mesmo assim. Sair nua no carnaval. Nua inteirinha. A arte da pintura corporal a adornar. Nada mais. Nem tapa-sexo. Não tinha sequer certeza de que seria permitido.

Candidatou-se. Os 118 quilos não eram impedimento legal, confirmou com a advogada. Sambava melhor que qualquer magra. Animava a bateria. Tinha uma voz incrível e um fôlego incomparável. Cantava e sambava, ao mesmo tempo, a distância do sambódromo inteirinha. Era uma verdadeira sereia do samba.

Amava mulheres. Era, além de tudo, lésbica. Preta, pobre, gorda, lésbica e, claro, mulher. Ela que sonhava em sair nua no carnaval.

26 Maio, 2012

Biscateen [repost Biscate Social Club]

It's amazing: I put these boots on, and everyone thinks I'm 18...
por Ed Yourdon, Flickr, CC
[texto originalmente publicado no Biscate Social Club, em 09/03/2012]

Esta era uma biscate adolescente. Biscatinha discreta, secretamente, estrategicamente não ficava com quem se conhecesse – sabem que na adolescência o medo de ser julgada é grande, mesmo entre biscates. Medo dos pais. Medo de engravidar. Medo, medo, medo. É claro, há outras coisas lindas e deliciosas, mas o medo está sempre lá. Ela porém não queria mostrar que era adolescente como toda outra adolescente.

Biscateen, vamos chamá-la. Ela ouvia as colegas, que um dia haveriam de ser amigas, talvez muitos anos mais tarde. Experiência zero. Era ela a primeira. Primeira a transar, a ficar com mulheres, a ter um trabalho, viajar sozinha, enfim. Como tantas outras Biscateens, chegara até os 15 lendo muita revista Capricho, numa época em que a internet não era lá muito disseminada e que não havia grandes e fáceis fontes de informação e espaços online para troca.

20 Maio, 2012

O Estado contra as Biscates [repost Biscate Social Club]

Out of Control
por Susan402, Flickr, CC
[texto originalmente publicado no Biscate Social Club, em 23/03/2012]

Era tarde quente, eu buscava exercer a quase impossível tarefa da locomoção em São Paulo. Ah, São Paulo, este “point” de gente conservadora, de governo e prefeitura ainda piores do que o povo. É fogo. Fogo estava aquela tarde.

Na tentativa de distrair – e disciplinar – a população, agora há televisões nos ônibus também, além de nos metrôs. Claro que a programação é vendida para uma das poucas emissoras grandes que continuam controlando a informação. Mas o ponto não é esse.

19 Maio, 2012

Aos indignados da sacolinha [repost Outras Palavras]

Trash Pile
por Kevin Gessner, Flickr, CC
[texto originalmente publicado no Outras Palavras, em 06/02/2012]

A proibição paulistana (e campineira; e provavelmente em outras cidades também, que eu não saberia citar aqui) de supermercados distribuírem sacolas plásticas para que os clientes transportassem as compras tem sido, no mínimo, polêmica. Grupos raivosos pipocaram na internet de todos os lados: contra, a favor, pela volta das sacolas, pelo fim dos supermercados, e por aí vamos. Por que, afinal, uma decisão aparentemente tão simples gerou tanto ódio?

Comecemos do começo. As sacolas plásticas vinham sendo utilizada em larguíssima escala e na maioria das vezes sem a menor necessidade (para carregar um litro de leite apenas, por exemplo, muita gente chegava a usar até duas sacolas). O fato de que depois essa sacola será usada como saco de lixo não exime nem elimina o problema de seu uso. Ela será provavelmente destroçada e seus pedaços acabarão na garganta de algum animal ou humano de qualquer forma, poluindo mananciais entre outros problemas associados.

Trata-se de uma questão maior que é o destino do lixo. O “lixo” que a sacola plástica comporta não acaba na porta da sua casa, nem no caminhão, nem no aterro. É um ciclo longo e muito agressivo, já que somos tantas pessoas tão concentradas nas grandes cidades brasileiras. Na grande maioria dos casos, o lixo poderia ser descartado em caixas de papelão ou sacos de papel, talvez um pouco menos agressivos, embora o descarte ideal e menos nocivo talvez fossem latões comunitários, esvaziados direto no caminhão. Você levaria uma caixa plástica reutilizável ao latão, despejaria seu lixo lá, passaria uma aguinha na caixa e voltaria pra casa feliz e contente. O caminhão recolheria direto esse lixo e levaria o orgânico pra uma grande composteira – enquanto o reciclável seria separado em usinas e reutilizado. Não é tão utópico assim, mas é preciso um pouco de vontade política.

13 Maio, 2012

"Mulheres" são brancas, "mulheres negras" são negras [repost Blogueiras Feministas]

Imagem da Benetton, divulgação.
[texto originalmente publicado no Blogueiras Feministas, em 30/08/2011]

Ontem foi Dia da Visibilidade Lésbica e pipocaram aqui um monte de textos bacanas. Há alguns dias, uma de nossas autoras fez uma crítica pública, não só ao nosso blog, mas também ao feminismo como um todo, reivindicando que a condição das mulheres negras fosse uma pauta no mínimo mais frequente. Neste blog, esta ausência se refletiu no número irrisório de posts que tratam, especificamente, das mulheres negras. Como bem disse a Luana, em 282 posts somente 3 falavam sobre o assunto, sendo que 2 eram dela mesma. Daí que tivemos a oportunidade de aprender muito a partir dessa crítica, eu, Luana, e todas as outras autoras e não-autoras do blog que participam do grupo chamado Blogueiras Feministas.

Quando esta infeliz estatística nos foi posta a olhos houve, da parte de algumas de nós, eu inclusa, a impressão pouco crítica de que o fato dos outros 279 posts não falarem sobre as mulheres negras não necessariamente significava que falavam sobre as mulheres brancas. Até que azamigue mais afiadas vieram com a novidade para a qual – pasmem – não tínhamos nos atentado até então: quando não se diz a cor, a etnia, a raça, ela é branca, ocidental, europeizada. Oras, não é uma das reivindicações do feminismo dar visibilidade às mulheres? Frisar que estamos aqui, que o coletivo plural no masculino não nos contempla? Então como não havíamos, esta fatia das BF, imaginado que quando não dizemos a cor, a cor é branca?

12 Maio, 2012

As avós [repost Blogueiras Feministas]

Flower
por Daniel Blume, Flickr, CC
[texto originalmente publicado no Blogueiras Feministas, em 25/01/2011]

João Garcia era filho de escravos. Isabel era filha de pequenos comerciantes espanhóis da zona rural da cidade de São Paulo (da época em que isso existia em grandes proporções). Ela branca, ele negro. Formaram uma família e trabahavam em suas pequenas terras para ter o que comer, o que vender (mas não muito) e o que trocar. Era uma família pobre de alguns irmãos e uma irmã, Zulmira.

Aliviando o peso de mais uma boca para alimentar para a família, aos 14 anos Zulmira aceitou uma proposta de emprego como babá de uma família rica em São Paulo. Seu pai a emancipou e ela foi morar com esta família. Alguns anos depois a bela, branquinha, magra e alta mulher-violão recebeu uma proposta para trabalhar como modelo. Sozinha como era, embarcou na profissão. De repente uma proposta nova: a televisão que estava em seu auge de glória dos programas gravados e ao vivo, nos final dos anos 50. Mudou-se para o Rio onde conheceu seu primeiro marido, que trabalhava na TV e se converteu a uma nova religião para casar com ela. Pouco tempo depois engravidou, saiu do trabalho na TV e passou a cuidar do filho, que também se chamou João.

09 Maio, 2012

Diferenças de gênero no impacto das mudanças climáticas

Escrevi há cerca de um mês sobre a importância de rompermos (ou subvertermos) certas estruturas sociais na construção de uma forma de vida mais sustentável para a humanidade:
Enchente no Bom Retiro
do Milton Jung, Flickr, CC [foto após enchente]

"Em 2012, a Conferência Rio+20 promete trazer ao debate sobre desenvolvimento sustentável ativistas, militantes, líderes políticos e governos. Juntos, tentarão dar conta do complexo e difícil quebra-cabeça contemporâneo: preservar o meio ambiente. Há quem diga que só a extinção do capitalismo poderia salvar a humanidade de uma hecatombe impulsada pelo uso predatório de recursos naturais. Há quem defenda que, mesmo dentro deste sistema produtivo, é possível criar desenvolvimento sustentável e manter — ou melhorar — nosso padrão de vida e conforto.

"Eu penso que, com ou sem capitalismo, as estruturas sociais é que farão a diferença na vida das pessoas. Começo por um caso simples: numa cidade, o espaço não é homogeneamente distribuído entre os habitantes. Os pedaços de terra, casas, apartamentos são muito diferentes entre si e acarretam diferentes consequências na vida de seus moradores. Em São Paulo, quem mora no Jardim Pantanal não poderia, por livre e espontânea vontade, mudar-se para um apartamento na Vila Madalena. O Jardim Pantanal fica boa parte da época de chuvas alagado (ironia?) e a Vila Madalena não. As mudanças climáticas influenciam na quantidade de precipitação, no regime de rios e lagos. Seus efeitos não são os mesmos num bairro e no outro."

(leia o texto completo em A Sustentabilidade Que Eu Quero)
Assim como a condição socieconômica das pessoas faz com que vivam as mudanças climáticas de diferentes formas (alguns com mais, outros com menos conforto), outras categorias que usamos pra classificar e hierarquizar as pessoas também exercem esse tipo de influência. Já existem uma série de trabalhos sobre o "racismo ambiental", por exemplo (leia mais neste excelente site de referência: http://racismoambiental.net.br/).