Não sei se já contei aqui no blog, mas eu militei praticamente toda minha adolescência e começo da vida adulta no movimento estudantil. Paralelamente me envolvi em outros tipos de movimento, sobretudo ONGs de juventude, meio-ambiente e educação. Desde sempre, porém, fazia o papel de chata nestes espaços trazendo sempre o olhar para a desigualdade de gênero. Assim aprendi – e gostaria de compartilhar com vocês – que mesmo as pessoas mais progressistas e revolucionárias em relação ao modo de produção, à organização social ou à sustentabilidade podem ser um antro de conservadorismo no que diz respeito a gênero. Passei a usar isso como termômetro: só considero progressista, revolucionário, libertário de fato quem não tem atitudes machistas ou, mais ainda, tem atitudes anti-machismo.
Esta semana rolou uma discussão nos comentário do blog do Luís Nassif: um carinha posando de revolucionário-progressista começou a usar e defender o termo “feminazi” para falar de “feministas radicais” (nas palavras dele, já que esse termo é usado a torto e a direito sem o menor escrúpulo do significado real tanto de ser feminista quanto de ser radical, inclusive pelo tal comentador). Até aí, vá lá, não dá pra controlar os comentários no blog e eu nem acho que isso deve ser feito. Penso que esse tipo de discurso manipulativo e sem estrutura argumentativa sólida, construído sobre falácias, preconceitos e senso comum (usado pelo comentador, André), é muito normal e aplaudido por um monte de gente. Isso não é novidade. O que eu gostaria de ressaltar aqui é que o blogueiro em questão, Nassif, publicou como post, na íntegra o texto do cara. Sem publicar um contraponto de uma feminista (como o ótimo texto da Cynthia que ela enviou para ele inclusive com este fim, ou o texto da Lola, também excelente resposta ao tal André). Pior ainda: quando perguntado no twitter o motivo de tal cagada, respondeu que queria “provocar mulher braba” ou algo do tipo. Achando-se o rei da gracinha com esta genialidade em forma de tweet.
Para entender melhor o rolo (não vou ficar descrevendo tudo de novo aqui) recomendo a leitura do blog da Lola e do blog da Cynthia. Ambos os textos deixam bem claro o que ocorreu, os tais argumentos sobre o termo “feminazi” e em que pontos (todos na verdade) o texto do tal André é falho, fraco, ridículo.
A reflexão que quero fazer aqui é de um buraco mais embaixo: o machismo da esquerda, dos progressistas, dos revolucionários. Bem, que um conservador do PP, do PSDB, etc. exiba por aí seu machismo, é esperado. Afinal de contas, em momento nenhum eles pregam a igualdade, a justiça social, etc. O problema maior é quando todos aqueles que se dizem em busca de “um mundo melhor” ou do tal “outro mundo possível” (pra relembrar o mote dos fóruns sociais mundiais) esquecem-se de que as mulheres estão incluídas nessa “justiça”, “igualdade” e “sustentabilidade”.
Historicamente entre os partidos comunistas, as questões das mulheres são colocadas em segundo plano, como se a mudança no modo de produção fosse automaticamente instaurar a igualdade de gênero. Como se a classe trabalhadora não tivesse práticas machistas ela mesma – como se tudo fosse uma consequência do capitalismo. Não é. A “causa das mulheres” (mais creches, ou licença maternidade, salários iguais, etc) é considerada secundária e as nós feministas somos consideradas divisionistas, o que representaria um problema na revolução. A esquerda é cheinha de indícios deste tipo de pensamento, a começar pelo fato de que seus partidos não fazem esforço ALGUM para eleger igualitariamente mulheres e homens e têm muito poucas mulheres em diretorias e cargos de poder. Isso sem falar em práticas ainda mais chocantes de militantes, como no PCO pedirem às militantes que usem seu poder de sedução para trazer novos membros e filiados aos partidos. Juro, história real, de uma amiga. Aconteceu mesmo.
Mas não venham me dizer que isso acontece porque os partidos são corruptos, porque política não presta, porque não é essa via que vai mudar o mundo. Estando envolvida com muitas ONGs de muito respeito e com gente realmente BRILHANTE que trabalha de forma MUITO inovadora em sustentabilidade, juventude, etc. observei a mesmíssima coisa: machismo pra lá e pra cá, sobretudo entre os homens que fazem este tipo de trabalho. Quando o evento Oásis Santa Catarina do Instituto Elos estava sendo organizado, por exemplo, muitos de seus facilitadores homens se aproveitaram da posição de “padrinhos” para sair “à caça” com mensagens fofíssimas e cantadas de boas vindas... mas só às meninas bonitinhas que chegavam na rede social do evento. Não eram mensagens enviadas a todos os chegados, nem a todas as meninas. Só aquelas que lhes 'interessavam'. Isto deve ser legalmente, inclusive, enquadrado como assédio. Estou viajando?
Já ouvi de gente muito esclarecida e muito FODA em sua área (foda de bom, viu), grande captadoras de recursos, grandes artistas, gente criativa, inovadora, supertchãn, conhecida mundialmente, etc. que DESIGUALDADE DE GÊNERO NÃO EXISTE (isso depois de termos feito um trabalho em conjunto justamente SOBRE desigualdade de gênero). Uma amiga que trabalha numa ONG super animal que tem um trabalho que respeito muito, me conta sempre a dificuldade que as mulheres da ONG tiveram e ainda têm pra trabalhar o tema entre os membros da tal ONG. Estão melhorando, ela me diz, mas ainda tem muito caminho pra andar. Nessa mesma ONG, que recentemente adquiriu muita visibilidade inclusive internacional, quem viajava, mostrava a cara e participava dos eventos superbacanas pelo mundo eram os homens – enquanto as mulheres faziam todo o “trabalho sujo” do backstage, no dia-a-dia da ONG. Agora não sei como anda, mas imagino que toda a discussão interna sobre gênero tenha surtido algum efeito.
Ou seja: o discurso é lindo! Revolução, socialismo, comunismo, ecovilas, sustentabilidade ambiental, economia solidária, redes, UHU! Mas quando vamos falar em abolir práticas machistas, opressoras, de dominação, somos comparadas a nazistas. Somos chamadas de chatas e loucas por insistir tanto nesse assunto, como se as mulheres tivessem salários iguais, acedessem a posições iguais no mercado de trabalho, tivessem o mesmo apoio que os homens têm das famílias em suas empreitadas individuais, etc.
Não fiquei chocada com a atitude do Nassif. Nem com o discurso do André. Talvez eu esteja pessimista demais. Mas se vocês tivessem visto, como eu vi, o quão machistas são as pessoas mais 'revolucionárias' e inteligentes e criativas e inovadoras e empreendedoras que acreditamos que vão de fato “mudar o mundo”, vocês também se afundariam na falta de esperanças.
Esta semana rolou uma discussão nos comentário do blog do Luís Nassif: um carinha posando de revolucionário-progressista começou a usar e defender o termo “feminazi” para falar de “feministas radicais” (nas palavras dele, já que esse termo é usado a torto e a direito sem o menor escrúpulo do significado real tanto de ser feminista quanto de ser radical, inclusive pelo tal comentador). Até aí, vá lá, não dá pra controlar os comentários no blog e eu nem acho que isso deve ser feito. Penso que esse tipo de discurso manipulativo e sem estrutura argumentativa sólida, construído sobre falácias, preconceitos e senso comum (usado pelo comentador, André), é muito normal e aplaudido por um monte de gente. Isso não é novidade. O que eu gostaria de ressaltar aqui é que o blogueiro em questão, Nassif, publicou como post, na íntegra o texto do cara. Sem publicar um contraponto de uma feminista (como o ótimo texto da Cynthia que ela enviou para ele inclusive com este fim, ou o texto da Lola, também excelente resposta ao tal André). Pior ainda: quando perguntado no twitter o motivo de tal cagada, respondeu que queria “provocar mulher braba” ou algo do tipo. Achando-se o rei da gracinha com esta genialidade em forma de tweet.
Para entender melhor o rolo (não vou ficar descrevendo tudo de novo aqui) recomendo a leitura do blog da Lola e do blog da Cynthia. Ambos os textos deixam bem claro o que ocorreu, os tais argumentos sobre o termo “feminazi” e em que pontos (todos na verdade) o texto do tal André é falho, fraco, ridículo.
A reflexão que quero fazer aqui é de um buraco mais embaixo: o machismo da esquerda, dos progressistas, dos revolucionários. Bem, que um conservador do PP, do PSDB, etc. exiba por aí seu machismo, é esperado. Afinal de contas, em momento nenhum eles pregam a igualdade, a justiça social, etc. O problema maior é quando todos aqueles que se dizem em busca de “um mundo melhor” ou do tal “outro mundo possível” (pra relembrar o mote dos fóruns sociais mundiais) esquecem-se de que as mulheres estão incluídas nessa “justiça”, “igualdade” e “sustentabilidade”.
Historicamente entre os partidos comunistas, as questões das mulheres são colocadas em segundo plano, como se a mudança no modo de produção fosse automaticamente instaurar a igualdade de gênero. Como se a classe trabalhadora não tivesse práticas machistas ela mesma – como se tudo fosse uma consequência do capitalismo. Não é. A “causa das mulheres” (mais creches, ou licença maternidade, salários iguais, etc) é considerada secundária e as nós feministas somos consideradas divisionistas, o que representaria um problema na revolução. A esquerda é cheinha de indícios deste tipo de pensamento, a começar pelo fato de que seus partidos não fazem esforço ALGUM para eleger igualitariamente mulheres e homens e têm muito poucas mulheres em diretorias e cargos de poder. Isso sem falar em práticas ainda mais chocantes de militantes, como no PCO pedirem às militantes que usem seu poder de sedução para trazer novos membros e filiados aos partidos. Juro, história real, de uma amiga. Aconteceu mesmo.
Mas não venham me dizer que isso acontece porque os partidos são corruptos, porque política não presta, porque não é essa via que vai mudar o mundo. Estando envolvida com muitas ONGs de muito respeito e com gente realmente BRILHANTE que trabalha de forma MUITO inovadora em sustentabilidade, juventude, etc. observei a mesmíssima coisa: machismo pra lá e pra cá, sobretudo entre os homens que fazem este tipo de trabalho. Quando o evento Oásis Santa Catarina do Instituto Elos estava sendo organizado, por exemplo, muitos de seus facilitadores homens se aproveitaram da posição de “padrinhos” para sair “à caça” com mensagens fofíssimas e cantadas de boas vindas... mas só às meninas bonitinhas que chegavam na rede social do evento. Não eram mensagens enviadas a todos os chegados, nem a todas as meninas. Só aquelas que lhes 'interessavam'. Isto deve ser legalmente, inclusive, enquadrado como assédio. Estou viajando?
Já ouvi de gente muito esclarecida e muito FODA em sua área (foda de bom, viu), grande captadoras de recursos, grandes artistas, gente criativa, inovadora, supertchãn, conhecida mundialmente, etc. que DESIGUALDADE DE GÊNERO NÃO EXISTE (isso depois de termos feito um trabalho em conjunto justamente SOBRE desigualdade de gênero). Uma amiga que trabalha numa ONG super animal que tem um trabalho que respeito muito, me conta sempre a dificuldade que as mulheres da ONG tiveram e ainda têm pra trabalhar o tema entre os membros da tal ONG. Estão melhorando, ela me diz, mas ainda tem muito caminho pra andar. Nessa mesma ONG, que recentemente adquiriu muita visibilidade inclusive internacional, quem viajava, mostrava a cara e participava dos eventos superbacanas pelo mundo eram os homens – enquanto as mulheres faziam todo o “trabalho sujo” do backstage, no dia-a-dia da ONG. Agora não sei como anda, mas imagino que toda a discussão interna sobre gênero tenha surtido algum efeito.
Ou seja: o discurso é lindo! Revolução, socialismo, comunismo, ecovilas, sustentabilidade ambiental, economia solidária, redes, UHU! Mas quando vamos falar em abolir práticas machistas, opressoras, de dominação, somos comparadas a nazistas. Somos chamadas de chatas e loucas por insistir tanto nesse assunto, como se as mulheres tivessem salários iguais, acedessem a posições iguais no mercado de trabalho, tivessem o mesmo apoio que os homens têm das famílias em suas empreitadas individuais, etc.
Não fiquei chocada com a atitude do Nassif. Nem com o discurso do André. Talvez eu esteja pessimista demais. Mas se vocês tivessem visto, como eu vi, o quão machistas são as pessoas mais 'revolucionárias' e inteligentes e criativas e inovadoras e empreendedoras que acreditamos que vão de fato “mudar o mundo”, vocês também se afundariam na falta de esperanças.
Mas resisto.
Avante, meninas!


9 comentários:
Pois é, PCO se igualando a Serra, que sugeriu às "moças bonitas" que pedissem votos aos seus "pretendentes" em troca de "uma chance".
Eu não me espanto com esse progressista, progressista, direitos das mulheres à parte, porque o machismo está naquilo que salta aos olhos, como a atitude do Nassif, está no que se fala e no que se cala. E nos pequenos detalhes.
è triste, mas é isso. é o que rola entre os ditos atores políticos de variadas estirpes e grupos. lamentável. tenho um longo histórico profissional com a esquerda, movimentos sociais, sindicais. e digo, sou muito pessimista! mas eles são muito cínicos, isso sim! porque discurso, queridas, eles sabem fazer.
houve dirigente que praticamente responsabilizou as feministas do PT pelo tema do aborto ter aparecido na campanha! céus! e acho que tem mais má notícia: tá cheio de desses caras aprofundando mais a presença da religião na política. Uóooooo
Lindo texto...eu sou otimista mas acho que nesse caso não dá para ser, estamos andando pra trás mesmo. A atitude do nassif e de comentaristas dele (homens e mulheres) ontem, me deixou de CARA! Mas, o que a gente pode fazer é lutar...desistir jamais!
Já vi coisa parecida: anos atrás eu era leitor assíduo do Centro De Mídia Independente, que provavelmente vocês já conhecem ou já ouviram falar. Uma das coisas que vi por lá é que em uma certa época (principalmente depois de começar a guerra do Iraque) virou tabu falar sobre a situação da mulher no mundo islâmico. O site é de publicação aberta, e sempre aparece gente postando sobre diversos assuntos, mas qualquer artigo criticando o machismo islâmico era escondido ou recebia uma enxurrada de comentários do tipo "aqui no ocidente também existe machismo" ou "isso é preconceito, temos que respeitar a cultura deles", chegando ao ponto até de defenderem a manutenção da mutilação genital feminina como característica cultural importante que o ocidente-americanizado-capitalista-malvado não deveria destruir. Isso que o CMI é considerado um site bastante progressista...
Pode parecer pequeno, mas uma coisa que me irrita demais é esta questão de "mulher braba". Trabalho em um setor da indústria automotiva e só eu sei que uma postura quase de "inimizade" é pré-requisito para conseguir trabalhar. Ai vem um qualquer e fala "mulher braba". Ora, quero vê-lo ter que peitar outras pessoas para ser ouvido ou para que dêem crédito à sua opinião. Se eu fosse só risadinhas já teria sido assediada, seguramente.
E a bossalidade não para por ai. Acabei de cumprimentar um senhor e o primeiro comentário foi "Como assim, vc corta o cabelo sem pedir autorização?"
Ha-ha-hah...como são engraçados.
E quando vc reclama é VC que é sem noção...
Pois e,reclamou, virou histerica.
As respostinhas dele foram aviltantes e tolas.
Joguei seu texto no Facebook, ok?
Olá, conheci seu blog hoje, através do blog da Lola, e estou adorando!
A respeito do assunto do post estou cada dia mais pessimista, pois meu namorido, homem de esquerda, já foi militante do PT, defensor de uma sociedade mais justa está me decepcionando. Dias desses estavamos almoçando juntos quando resolvi falar a respeito do Estatuto do Nascituro, que eu considero uma afronta contra os direitos humanos das mulheres,e estava explicando que o tal Estatuto proibe o aborto até em casos de estupro e ainda pretende obrigar o estuprador a pagar pensão caso a vítima tenha um filho, e se o criminoso não puder pagar o Estado terá que pagar. Foi então que o namorido virou pra mim e soltou a pérola: "Menos mal, porque o Estado vai te pagar pensão". Juro, meu queixo só não se espatifou no chão porque a mesa aparou, e não perdi a fome porque tinha acabado de engolir a última garfada! Se meu namorido progressista pensa dessa forma, imagina os não-progressistas???
Tenho medo!!!
Mari Andrade, bem vinda! Pode voltar quanto quiser e comentar mais ainda! hahaha :) Adoro comentários, acho que todo mundo gosta de ter um feedback né?
Sobre esse lance do teu namorado, queria reiterar uma coisa: mesmo tendo visto muito desta tendência dentro da esquerda, também já vi muito fora, sabe? E é igualzinho, não é melhor nem pior. Eu e algumas colegas feministas desconfiamos fortemente de que o posicionamento sobre igualdade de gênero está praticamente desvinculado de outros posicionamentos políticos sobre a forma de organizar a sociedade, sabe?
Mas também não é pra se desesperar! É possível sensibilizar as pessoas para a igualdade de gênero e talvez sugerir algumas leituras de blogs pro teu amor seja uma boa. Temos um coletivo, o Blogueiras Feministas (www.blogueirasfeministas.wordpress.com) que é bem bacana. Tem um texto meu desta semana chamado "Feminista, eu?" e vc pode de brincadeira falar pro seu namorado fazer o "teste" que eu criei pra brincar com a idéia de que todos temos um pouco de feminismo :)
Dá uma olhada lá e me diz o que acha!
Nossa, achei esse seu texto fazendo clipping, acredita? hehe Não tinha visto...
Acho só legal deixar claro que o Oasis Santa Catarina não foi um evento organizado pelo Elos e sim um movimento organizado em rede distribuída, por um coletivo aberto. Esses facilitadores que tinham essa postura não eram do Instituto Elos e a maioria nem está mais na rede do Oasis Mundi.
(nem preciso dizer que reconheci todas as pessoas e situações que você citou sem citar nomes hehe)
Beijoca :-)
Mari
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