Hoje é dia internacional de luta pela saúde da mulher (e este texto é parte de uma blogagem coletiva das Blogueiras). Começo aqui com uma crítica bem pentelha (claro, ainda sou eu mesma, gentê) sobre esse termo "saúde da mulher". Aproveito também pra compilar algumas histórias e idéias de posts que já rolaram aqui sobre saúde da mulher (que não foram poucos) em alguns temas clássicos: gravidez, anticoncepcional, corpo, medicina, ciência... E termino com um apelo pra que a nossa saúde nos pertença. Então vamos lá: comofaz a gente falar em saúde da mulher numa sociedade, numa medicina e numa ciência que enxergam nosso corpo do jeito que a figurinha aí do lado mostra?
1. Saúde da mulher vs Saúde das mulheres
Detesto com todo meu ódio tudo que é tipo de generalização. "A mulher", "O homem", "A sociedade", "o brasileiro", "a brasileira", "o pobre", "o burguês", "o operário" e assim segue... Simplesmente porque isso não existe. Nenhuma destas categorias dá conta da diversidade que, ainda bem, existe em nossa sociedade. Ao utilizar um termo desses estamos falando de tipos idealizados que frequentemente discriminam. Falar em "Saúde da Mulher", assim, com essas palavras, pra mim, mostra a idéia de que a saúde de todas as mulheres é igual, o corpo de todas as mulheres é igual e, se não é, o seu corpo é que está errado. Só que neste jogo há muito mais exceções que regras, e aí? Justamente por isso, falar em "Saúde da Mulher" também me parece excluir as próprias mulheres disso. "Saúde da Mulher" é um termo que segrega. Proponho no lugar "saúde das mulheres" que não só exibe a diversidade do que podem ser "mulheres" mas também dá um senso de pertencimento já que a saúde tem que ser nossa mesmo, estar em nosso poder.
2. Gravidez I: Anticoncepcional
Já escrevi aqui um montão sobre anticoncepcional, vocês devem ter visto se chegaram a dar uma fuçada no blog. Entre esses posts, algumas críticas são essenciais para construirmos uma saúde que seja efetivamente das mulheres:
a) Ginecologistas receitam anticoncepcionais sem levar em conta o estilo de vida das pacientes, o que interfere diretamente na eficácia do tipo escolhido, seja ele pílula, anel vaginal, adesivo, injeção, DIU, etc. (veja o post "Anticoncepcional que custa R$1,99 ou de graça!")
b) Não existe anticoncepcional masculino. Em nossa sociedade a responsabilidade de não-engravidar é da mulher. E antes que me venham dizer que não é cientificamente ou tecnologicamente possível fazer um anticoncepcional masculino, entendam que isto é uma falácia. A idéia de que não se pode violar ou mudar o corpo de um homem é muito forte para nós, enquanto as mulheres são diariamente ensinadas que seus corpos estão, em todos os sentidos, "errados". Os primeiros anticoncepcionais femininos (e os atuais de forma diferente) eram muito agressivos ao corpo, eram de certa forma experimentais. Mas experimentar com corpos masculinos? Jamais. Cientistas homens e mulheres foram criados na mesma sociedade que a gente, com estas mesmas noções, então já viu né? O post sobre a agressão do anticoncepcional e o fato de não haver anticoncepcional masculino é esse aqui: "Quanto custa minha liberdade?". Sobre o controle do corpo feminino e nossos corpos "errados" veja mais abaixo uma sequência razoável de posts.
c) Além de tudo, o anticoncepcional é cheio de mitos e desiformação muitas vezes do próprio ou da própria ginecologista! Alguns cuidados básicos pra garantir a eficácia de pílulas e até de outros métodos anticoncepcionais hormonais não são sequer mencionados por médicos. Ao mesmo tempo, há muita desinformação sobre a pílula do dia seguinte e tem gente que pensa que ela provoca um aborto... Escrevi um pouco sobre isso nos posts "É possível engravidar tomando anticoncepcional?" e "Pílula do dia seguinte provoca aborto ou faz abortar de algum jeito?".
3. Gravidez II: Aborto e maternidade
Algumas questões relativas à maternidade me incomodam bastante. Uma delas é a posição hegemônica que ronda nossa sociedade sobre o aborto, outra é a posição de muitas de nós feministas sobre a descriminalização ou legalização do aborto. Escrevi sobre isso em "Se o aborto é crime, fazemos política no escuro". A idéia do aborto como direito me fez escrever uma comparação entre Brasil e França assim ue cheguei em Paris e dei de cara com um outdoor que dizia que o aborto é "um direito, sua escolha, nossa liberdade", em "Conversas sobre o aborto: Brasil e França". Me revoltei e continuo me revoltando, também, com os usos malvados e mau intencionados que a mídia de massa faz da linguagem - e fez muito na campanha presidencial do ano passado - para dar a idéia de que quem defende o direito ao aborto quer matar criancinhas. Uma reflexão crítica sobre "Sou contra o aborto", expressão usada pela presidenta Dilma na campanha, está no texto "O que quer dizer 'sou contra o aborto' pra você?" Além disso, uma certa pressão modernosa por uma maternidade natureba, integral, etc. como se essa fosse a única legítima maternidade também me parece limitar muito as opções das mulheres, correndo o risco de cairmos numa espécie de retrocesso das conquistas feministas. Encontrei um texto bacana sobre isso em um livro e traduzi: "Maternalismo x Feminismo".
4. Nosso corpo é "errado".
Todas as questões anteriores pra mim passam por esta aqui. Existe uma idéia de que há um "corpo da mulher" que é ideal e funciona idealmente de um jeito X. Tudo é feito pra que não aceitemos a diversidade de corpos que existe no mundo real. Não aceitando esta diversidade, temos sempre a impressão de que nossos corpos são errados, feios, sujos e temos que consertá-los seja fazendo cirurgia plástica, seja parando de menstruar, seja nos depilando. Eu também faço essas coisas (exceto plástica que nunca fiz mas não sou necessariamente contra) mas também sofro com elas e é esse sofrimento que gerou um pouco dessa crítica toda. Alguns temas essenciais:
a) Temos dispositivos de controle estético. Esses dispositivos vão desde xampus para "domar" seus cabelos até a depilação que, na minha opinião, é a nossa própria versão da burca. Os posts "Produtos para domar os cachos e controle social sobre o corpo" e "Depilação é a burca brasileira" dão mais detalhes destas críticas. Fiz uma enquete sobre depilação ("Por que você se depila?") e os resultados mostraram que mesmo a massa crítica que lê blogs feministas tem a impressão de que depilação é uma questão de higiene, idéia com a qual não concordo nem um pouco. Essa questão toda de controle e do nosso corpo ser errado, pra mim, surgiu mais claramente quando li um texto de um blog francês bacana sobre sexo, o Zone Zérogène. O texto é bem bacana e compara as ideias que temos sobre vaginas/vulvas e pênis enquanto sujo/errado e limpo/certo. Acabei traduzindo e postei, com o título de "Vaginas x Pênis: a batalha não está ganha". Vale bem a leitura (principalmente se você já viu nos supermercados aqueles sabonetes íntimos ridículos, que acabam com a flora vaginal que te protege da candidíase e outras pequenas chateações).
b) Nisso do controle estético que é muitas vezes higienista entra o enorme tabu da nossa menstruação. Muita gente tem horror à própria menstruação, muita gente sofre na mestruação, muita gente acha que aquele sangue é sujo e tem gente que não faz sexo durante a menstruação! Ufa! É um montão de coisas que escrevi sobre isso aqui também, sobretudo quando fui redescobrindo minha menstruação como algo delicioso, cíclico, normal, tranquilo... Fácil não foi, mas compartilhei aqui no blog algumas coisinhas. Fiz uma enquete sobre sexo durante a menstruação e os resultados foram no mínimo interessantes ("Você transa durante a menstruação???") daí em seguida escrevi um texto sobre o assunto ("Sexo durante a menstruação: uma questão de auto-estima"). Acabei concluindo que a menstruação ainda é um tabu enorme depois de outra enquete no blog perguntando o que as leitoras achavam da própria menstruação. O resultado e algumas reflexões estão em "Menstruação ainda é, sim, um tabu".
5. Nosso corpo não é nosso.
Um monte de fenômenos sociais que vão além do fato de não existir anticoncepcionais masculinos e se experimentar deliberadamente com o corpo das mulheres enquanto o corpo dos homens é bem mais velado, mostram que nosso corpo não é tão nosso quanto gostaríamos ou quanto poderia ou deveria ser. Entram aí estupros e até o caso da Geisy Arruda. Me deparei certa vez com um texto bacana de jornal sobre como a culpa de um estupro é frequentemente colocada na vítima quando esta é mulher, claro (de novo: seduzimos, não fechamos as pernas, ficamos sóbrias, usamos roupas curtas, não gritamos alto o suficiente, não usamos cintos de castidade, etc). Traduzi do inglês e postei com o nome de "Culpem o estuprador, não a vítima". E sabe que esse comportamento social não parece tão contraditório? Afinal nossa sociedade tem jogos em que a diversão é estuprar (leia "Rapelay, o jogo de videogame que simula estupros").
Isto está diretamente relacionado à noção de que nosso corpo não é nosso e não podemos fazer com ele o que quisermos. Eloá Pimentel foi assassinada por dizer "não" ao ex-namorado (leia "Dizer não: a saga trágica de uma jovem construindo sua autonomia") e Geisy Arruda foi punida por colegas, pela Uniban e por nossa sociedade em geral ao usar um vestido considerado curto (leia "A Fogueira e as Bruxas: o caso de Geisy Arruda e da Uniban sob uma perspectiva histórica"). A diferença de tratamento dada pela mídia de massa aos assassinos Lindemberg (do caso de Eloá Pimentel) e Suzane Richtofen (que matou a própria família com o namorado) mostra que os homens são mais facilmente perdoáveis no senso comum ("Justiça vs Democracia: de Lindemberg e Suzane").
A tudo isso ainda se somam mitos e desinformações propositais sobre uma certa sexualidade feminina que raramente corresponde à realidade de muitas mulheres. Entramos em conflito pois somos criadas e educadas como seres sem desejo sexual (escrevi sobre em "Homens sentem mais desejo sexual do que mulheres?") e, pior, essa sexualidade é vista como natural inclusive quando a aplicamos para animais (por exemplo quando criamos bonecas infláveis para cachorros machos e não para cachorras fêmeas - escrevi "Bonecas infláveis para cachorros, mas não para cachorras" sobre esse absurdo). Publiquei também um Guest Post na Lola, com o título "O prazer é garantido... para quem?" ainda sobre essa questão.
6. Somo invisíveis, particulares, específicas. Os homens são visíveis, "neutros" e gerais.
Percebo que de uma forma ou outra, tudo isso é consequência de uma invisibilidade que criamos para nós, mulheres, ao longo da história. Não discriminar gênero quando falamos de qualquer assunto e falarmos de "humanidade" ou "humano" ou, pior, "homem" em geral só faz "apagar" as mulheres. Por que os homens se sentem ofendidos se usamos o feminino para falar de um grupo majoritariamente constituído por mulheres mas nós não nos sentimos nem um pouco atacadas se não dão conta de nossa particularidade/especificidade em casos do tipo? Escrevi sobre isso um texto chamado "Como esconder as mulheres" trazendo alguma evidência de que geralmente quando queremos ser "neutros" usamos o masculino, que não é nada neutro. Ao longo da história da ciência e do pensamento, enquanto somos "apagadas" e consideradas "exceções" (embora tenha havido muitas de nós como mostra a dica de um e-book em "Mulheres na Ciência"), os homens se cosolidam como "gênios universais".
7. Breve anti-conclusão: nossa saúde não é nossa, é "da mulher"
Esse monte de aspectos das diferenças e desigualdades entre homens e mulheres (vá ao dicionário se tem dúvidas de que são termos distintos) em nossa sociedade produzem a noção de que a "norma", o "zero da balança", o "certo", o "limpo", a "regra", o "geral" é o corpo e o funcionamento do corpo masculino. Embora os homens também estejam sujeitos a muuuuuitas pressões, ainda são criados com um pouco mais de liberdade e aceitação sobre o próprio corpo e a própria saúde (alguém arrisca refletir sobre por que eles vão menos a médicos, depois de ter lido esse post?) do que nós, mulheres. O tratamento por vezes terrorista dado a mulheres pelos mais diversos tipos de médicos homens ou mulheres (uma amiga contou aqui de uma visita trash a um ginecologista, em "Ginecologista - Aventuras médicas de puro terror") vem daí. Minha inquietação com uma pesquisa que disse que homens relatam mais bullying do que mulheres, ao que me parece que as mulheres não consideram bullying coisas que os homens achariam o maior bullying do mundo estivessem em seus lugares ("Estamos mais acostumadas ao bullying do que os homens?" é sobre isso), também.
Considerando cada um destes aspectos do nosso corpo e do nosso gênero, só posso me recusar a lutar por uma saúde "da mulher". Esta já temos. Artificial, externa, que não conta em nada com as mulheres em si, mas com um tipo geral idealizado. Faço um apelo, queridas mulheres feministas ou não. Lutemos por uma saúde que seja, sim, nossa: das mulheres.

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