Mulher. Ah, mulher. Essa palavra-chave tão difícil. A pergunta mais óbvia se revela, se ousarmos colocar a pontinha dos pés pra fora da zona de ignorância do senso-comum, um tanto quanto difícil. Que significa “mulher”? Quais os pré-requisitos para ser “mulher”? Ser mulher é o quê? Quem é que pode dizer-se, legitimamente, “mulher”?
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| foto de Carlos Cecconello / Folhapress |
Há músicas, livros, teses, pesquisa, cadernos de jornal e tantas outros produtos da nossa sociedade dedicados a esta figura, “a mulher”. O único problema é que ela não existe jamais assim, no singular.
“Questão da mulher”, “saúde da mulher” – já fiz questão de discutir aqui no blog minha implicância com essa categoria assim, tão totalizadora, quando não colocada no plural. A ideia de uma “mulher” única, de uma identidade comum a todas as mulheres, não passa de uma falácia. Identidade, em geral, não me parece algo assim linear e ainda menos quando se trata de uma identidade de gênero. O que afinal, me torna mulher? Poderia ser a mesma coisa que te torna mulher? Que torna outras de nós mulheres?
O argumento mais comum diante desta dificuldade recorre ao determinismo biológico. Mesmo este, porém, não é tão óbvio e natural quanto pode parecer a algumas pessoas. Os intersexos e as cirurgias de mudança de sexo são fatos sociais e biológicos que viram mesmo esta lógica do avesso.
“MULHER”, dizia a caixa. “Mulher…”, pensou ela. “Por que não?”Encontrou os requisitos obrigatórios da caixa “mulher”. Apenas um. Devia ser moleza, pensou.“Ter nascido com uma vagina.”Vagina. Olhava incansavelmente para o papel. Não tinha nascido com uma vagina. Quase desistiu. Chorou. Soluçou. A mesma dor de sempre. Reclamou, contou suas histórias às partículas que pairavam no ar.E então, o silêncio.A caixa estava errada. Ela sabia que era mulher.""
(leia o conto completo em Caixas, no Biscate Social Club)
Há, ainda, pessoas transexuais, transgêneros e travestis. Enquanto transexuais identificam-se com um gênero que não aquele atribuído a ele ou ela pela medicina de acordo com o aparelho reprodutor na hora do nascimento, travestis identificam-se com e vivem mais de um gênero ao mesmo tempo. Esta semana o cartunista Laerte, conhecido socialmente primeiro como homem e mais recentemente também como mulher, tendo assumido-se travesti, recorreu à justiça pelo direito de usar o banheiro feminino quando “estivesse” mulher.
Há ainda casos e mais casos que ajudam a desconstruir o determinismo biológico. Um deles está retratado no documentário "Me, my sex and I" da rede britânica BBC. O programa, que você pode assistir aqui (em 4 partes, em inglês), mostra casos de intersexo que foram forçados a enquadrarem-se em uma das categorias estáticas binárias em vigor – homem ou mulher – ao serem submetidos ainda bebês a cirurgias “corretivas” do que grande parte da medicina considera um “problema”. Além destas emocionantes histórias, apresenta a história de Katie, uma mulher que, aos 18 anos de idade, descobriu carregar o código genético “de um homem”.
Pois o que é que nos torna todas, então, mulheres?
Eu, que nasci com o aparelho reprodutor “feminino” do jeitinho que consta nos livros de biologia;
Travestis, quando estão mulheres;
Transexuais e transgêneros, que nasceram com pênis e escroto e já passaram ou não por uma cirurgia de mudança de sexo;
Intersexos, cujo corpo não corresponde ao modelo médico tomado como “norma”.
O que é que nos torna todas mulheres?
Como havia avisado, não pretendo responder a esta pergunta. Sobre isso só posso ter uma única conclusão: não cabe a mim nem a ninguém, jamais, querer saber, recortar, classificar, encaixar ninguém que não a si mesma nesta categoria por vezes tão opressora.
Feliz Dia Nacional da Visibilidade Trans!
[Este post participa de uma blogagem coletiva sobre transexualidades, organizada pelas Blogueiras Feministas para celebrar esta tão batalhada data que é o dia 29 de Janeiro no Brasil. Leia posts excelentes aqui!]


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