17 Fevereiro, 2012

Antes de começar o carnaval, faça um minuto de silêncio

Assassinadas em um estupro coletivo.
Carnaval é uma delícia. Sensualidade, pegação, muita dança, folia. Mesmo eu, que nunca fui carnavalesca, me delicio em São Paulo vazia, quase abandonada e aproveito pra escutar um bom samba, que não faz mal a ninguém. Todo o clima bom do carnaval vem, porém, do fato de que fazemos o que queremos. Quando queremos. Como queremos. Se não fosse assim, não seria bom. Como não é, pra tantas mulheres assediadas, estupradas, violadas em plena festa.

Imagine só. Você vai a uma festa com amigos pra dançar, curtir, se divertir e, se quiser e quando quiser, ficar com alguém. De repente seus conhecidos e amigos que estão lá entram mascarados, armados, simulando um assalto. Você e as outras amigas que estão na festa são amarradas. Amordaçadas. Uma a uma, são estupradas por diferentes homens. Eles riem do desespero. Vocês choram, desesperadas. Temem pela vida. As duas moças que reconheceram os mascarados foram assassinadas. Em toda situação de trauma no dia seguinte, ainda escutam declarações dos criminosos de que o estupro coletivo era "um presente de aniversário".

Ninguém fez nada.

Essa história de horror não é roteiro de filme. Nem literatura. Esta história de horror aconteceu em Queimadas, na Paraíba, há poucos dias atrás. Este é um post de luto, de luta. Os jornalhões não noticiaram o caso, talvez porque tenham preferido falar sobre o julgamento de Lindemberg, talvez porque um dos criminosos seja sobrinho do prefeito da cidade. Não importa. O fato é que não noticiaram. Então noticiaremos nós.

Você encontra reflexões excelentes e mais informações sobre este triste episódio nos posts da Blogagem Coletiva sobre o Estupro Coletivo em Queimadas, organizada pelas Blogueiras Feministas e pelas Luluzinhas.

Nós não somos objetos. Muito menos presentes de aniversário.


- - - - - - 

Em tempo, reproduzo um trecho do excelente texto da Luciana sobre o caso. Compartilho dessa ideia:

"De vez em quando, especialmente quando acontecem casos de violência e crueldade quase indescritíveis contra a mulher, ressurge a frase: “toda mulher tem uma história de horror pra contar”. Acontece que eu não tenho. Embora sofra o efeito da mesma discriminação cultural e econômica, da violência estrutural contra a mulher, que faz com que nossos salários sejam menores, nossa competência contestada, nossas habilidades minimizadas, pessoalmente eu não tenho nenhuma história de horror e/ou violência. Meu pai sempre me tratou com amor e respeito, meu irmão é apoio, diversão e carinho na minha vida, meus tios e primos são queridos companheiros de riso, meus namorados, ficantes, flertes e casos em geral sempre me deram prazer e recordo os relacionamentos com alegria, meus colegas de Universidade e trabalho interagem com gentileza e respeito mútuo. Nunca fui bolinada ou assediada com agressividade e se já me cantaram na rua eu não registrei.

Isso quer dizer o quê? Que sou especial? Ou que as outras mulheres inventam e se vitimizam? Não. Não. Não. Isso quer dizer que é possível. Que não são “os homens” que estupram “as mulheres”, que não há uma lei natural que determine que “isso sempre aconteceu e sempre vai acontecer”. Isso quer dizer que não é um fenômeno imutável sobre o qual devemos lamentar em voz baixa e rezar para que não aconteça com ninguém que a gente conhece. Não. Não. Não. Eu conto que não tenho uma história de horror pra dizer que são alguns homens que estupram, não porque são monstros desumanos, mas por que formados e forjados em uma sociedade que nos forma a todos que calamos diante dos abusos, que consentimos, que perguntamos “ah, mas com essa roupa e quer ser respeitada?”, “ah, mas ela tava sozinha na festa?”, “ah, vai ver ela estava gostando, nem gritou, né”. São homens formados e forjados em uma sociedade que justifica ou ameniza esta violência cruel que é o estupro com a desculpa que “é o instinto”, que foi “um impulso irresistível”, “que ele não aguentou a provocação da sensualidade e beleza dela”."

0 comentários / comments: