03 Março, 2012

Impedidas de entrarem na escola por serem mulheres, logo biscates

Danilo Verpa/Folhapress
Não é segredo que cultivamos em nossa sociedade uma série de dispositivos de controle do corpo de homens e mulheres. Não é segredo que, no caso das mulheres, um dos dispositivos mais eficazes é a repressão da sexualidade. Não é segredo que uma das manifestações mais frequentes deste são os códigos de vestimenta (além dos de comportamento). Funciona assim: as mulheres não devem ser sensuais nem ter sua sexualidade livre se quiserem ser levadas a sério e serem respeitadas. As mulheres que têm sua sexualidade livre ou exibem a sensualidade são xingadas (periguete! biscate!), desqualificadas, assediadas (Ô, princesa!) e, pasmem, até estupradas em muitos casos ("ela pediu", "ela provocou", etc). Pois esse pensamento machista e desumano foi resumido num episódio esta semana, no último lugar em que deveria (na minha opinião) acontecer.

Na entrada da Escola Dr. Alarico Silveira, na Barra Funda, a diretora Raquel e alguns professores cometeram um ato ilegal: impediram alunas de entrar na escola "por estarem vestidas de forma sexy". Independentemente da discussão sobre o que é sexy (já que a maioria estava de camiseta e jeans, vejam vocês), a mentalidade da diretora é de qualquer forma arcaica, opressiva, desumana. Ela pensa como um estuprador: as mulheres "provocam" os homens, as mulheres naturalmente têm uma tendência a despertarem o "mal", a se tornarem o próprio demônio. Não tenho muito estômago pra dizer mais que isso por enquanto, mas a reportagem da jornalista Talita Bedinelli, da Folha, deixa claro o absurdo da situação, que extrapola a questão legal envolvida. Leiam a seguir:


Blusas justas e sutiãs coloridos foram argumento usado por diretora para punir estudantes de colégio estadual. Meninos também foram vetados, 3 deles porque usavam camisetas coloridas e um porque usava camisa justa.

TALITA BEDINELLI
DE SÃO PAULO

Na manhã de ontem, um grupo de aproximadamente 60 estudantes de 15 e 16 anos, na maioria mulheres, foi impedido de entrar na escola estadual onde estudam. 

O motivo: estavam vestidas de forma "muito sexy e provocativa", disseram os alunos, na opinião da diretora da Dr. Alarico Silveira, escola que fica na Barra Funda (zona oeste de São Paulo), identificada só como Raquel. 

Os alunos afirmam que foram surpreendidos ao chegar à escola, às 7h. Segundo eles, professores e a diretora estavam no portão, avaliando quem seria autorizado a entrar. 

"A diretora dizia: você está sexy. Não vai entrar", afirmava, em coro e indignadas, um grupo de barradas. 

Segundo elas, houve bate-boca e confusão. Uma professora teria empurrado uma aluna e outra estudante cortou a mão, ao tentar forçar o portão enquanto ele era fechado em sua cara, disseram.
Na discussão, uma aluna acusou a diretora, que usava vestido regata na altura dos joelhos, de estar "pelada". 

BLUSAS JUSTAS
Às 11h, parte do grupo ainda estava na porta da instituição, sentada na calçada. Eram cerca de 20 alunos, sendo quatro meninos -três barrados por estarem com camisetas coloridas e outro porque usava camisa um pouco mais justa. 

As blusas justas também foram a causa de punição da maioria das meninas vistas pela Folha. Nenhuma vestia blusa decotada ou que deixava a barriga de fora. Só uma estava de regata. Todas usavam calça, duas delas do tipo legging (mais justas). 

SUTIÃS COLORIDOS
Duas meninas que usavam camisetas com o logotipo da escola foram barradas porque os sutiãs eram muito coloridos, fato admitido pelos próprios professores e gestores, que pediram para não ter seus nomes identificados. 

"A diretora falou que só poderia vir para a escola usando um sutiã cor da pele", afirmou Maria Aparecida Mendes, avó de uma aluna. 

"Minha filha estava de calça jeans e camiseta. Mas, se a blusa for mais justinha no corpo, já é sexy para a diretora", disse Jassiara Aragão, 34, mãe de outra estudante. 

DECENTES
Em conversa gravada pela reportagem, os professores e gestores negaram agressões. 

Mas afirmaram que a prática foi uma espécie de "basta". Segundo eles, há um mês os alunos estavam sendo orientados sobre as regras -só pode entrar de calça jeans e camiseta com o logo da instituição ou branca. Roupas "indecentes" serão vetadas na porta. 

"Eles têm que vir decentemente vestidos. Está fazendo calor e as meninas acham que podem vir de qualquer jeito", ressaltou um deles. 

"Estamos estabelecendo valores morais. Se a gente deixar, as alunas vão vir de top curto com short", disse outro. "Pode até ser que um aluno tenha ficado para fora injustamente", afirmou um. 

A diretora disse que não poderia dar entrevistas. 

Impedir a entrada de estudantes que não estejam de uniforme (mesmo que seja de camiseta branca simples) é ilegal, conforme a própria Secretaria Estadual de Educação."

3 comentários / comments:

Marilia Ortiz disse...

A situação da reportagem me lembrou muito da minha época da escola. Estudei em um colégio de freiras e tinha que usar uniforme. Um uniforme péssimo aliás. A gente tentava dar uma customizada... Cortava a gola da camiseta, fazia um ajustezinho na bermuda e talz. Mas até a cor do tênis era motivo para implicância.

Na escada havia uma inspetora verificando se as bermudas do uniforme estavam na altura correta para poder subir para a aula. Se três dedos acima do joelho estivessem aparecendo, era o caso de dar meia volta.

Agora retorno ao ambiente universitário e vejo na FGV as meninas (muitas gringas inclusive que estão fazendo summer school) com shortinhos e sainhas micro. Lindas e felizes com as pernas de fora neste calor insuportável que acomete a cidade. E fico me perguntando se seriam discriminadas na uniban como Geyse Arruda foi.

Tem aí uma coisa de classe embutida que combina com discursinhos moralistas do tipo: "tem mulher que não fica vulgar".

E disso ninguém parece falar...

Marilia Ortiz disse...

E hj na trilha de alguém que anda fuçando blogs achoum post de uma mulher comentando a "falta de classe": http://entresaiasesaidas.wordpress.com/2011/10/20/deus-e-justo-mas-esse-vestido/

Lembrei do coments. Acho que complementa. bjs da xará.

Mari Moscou disse...

Gentem, que horror. Quanto preconceito esse link aí de cima, Má! Credo!

Eu luto por um mundo onde as pessoas se importem com OS PRÓPRIOS corpos e deixem os corpos dos outros para que eles se encarreguem...