02 março, 2012

Uma ciclista morta é problema de tod@s

No ano de 2009, Tábata voltava para casa do trabalho, como sempre fazia. Na região da Avenida Paulista, tomava um ou dois ônibus até o extremo oeste da cidade, onde morava com a mãe e os irmãos. Amigas de infância, vez ou outra ainda nos cruzávamos na rua, em festas, eventos, com amigas em comum. Adolescemos juntas, ouvíamos as mesmas bandas, tomávamos os mesmos ônibus. Naquele dia um motorista de ônibus imprudente invadiu a calçada e atropelou minha amiga. Que pacientemente esperava a hora de voltar para sua casa, no local certo, sem sequer queixar-se dos poucos carros na linha, do preço da passagem, do trânsito provocado por inúmeros carros particulares. Minha amiga ficou em coma, e eu fiquei com uma dor no coração. Chegou a sair do coma, acordar, mas depois teve complicações de cirurgias mal feitas da época do atropelamento e faleceu no final do ano.

Nas ruas da vila Madalena, onde cresci, não há mais carrinhos de bebê nas calçadas. Há carrões importados ocupando uma faixa e meia, uma vaga e meia, de gente que me parece ter mesmo é "meio" cérebro, pra imaginar que seja "ok" ocupar a rua de tod@s com uma verdadeira arma letal. Foi neste bairro que, também caminhando pela calçada tranquilo, faleceu mais recentemente Vitão, vítima de uma motorista imprudente e, digo sim, assassina.

Hoje é mais um dia destes de luto. Uma ciclista (cujo nome ainda não foi confirmado) na casa dos 30 anos foi assassinada por um motorista de ônibus em plena Avenida Paulista. Uma ciclista de 30 anos. Quantas amigas tenho eu que são ciclistas de 30 anos? Poderia ser qualquer uma delas. Poderia ser eu. Poderia ser você. Em seu plano direito - e dever - de andar com a bicicleta pela rua, reivindicando talvez um pouco de respeito às leis já existentes sobre o assunto. O mínimo: direito a não ter sua vida ameaçada no caminho de casa para o trabalho.

Nenhum destes casos foi acidente. Acidente é uma pane elétrica num avião. Acidente seriam ônibus e carros automáticos, não controlados por seres humanos, atropelarem pessoas. Acidente é um animal que atravessa a pista da estrada de repente. Uma cidade com ônibus mal-cuidados por negligência da prefeitura não é acidente. Uma cidade sem um esquema de mobilidade mínimo que permita às bicicletas, carros e pedestres conviverem e que permita às pessoas de fato escolherem seu meio de transporte (sem que qualquer escolha representa grave ameaça à própria vida) tampouco é acidente. Motoristas bêbados, desatentos, despreparados, mal-pagos - muito menos.

Na confusão de tentar transmitir minha tristeza, minha agonia, minha indignação, lembro-me de ter visto, em Campinas, um motorista de ônibus bêbado entrando no carro e dando a partida para trabalhar. Ele mal conseguiu andar em linha reta até a porta dianteira no terminal. O que quero dizer com este post é que as mortes no trânsito não são só um problema dos ciclistas. Se você anda a pé - para atravessar uma rua que seja - também pode acontecer com você.

A posição de "ciclista", "motorista" e "pedestre" não é fixa. Somos todos ciclistas, motoristas, pedestres. Todos estamos sujeitos e sujeitas aos mesmo riscos. Por que não tomar com @ outr@ o cuidado que você gostaria de receber naquela posição?

Só lamento.

* * *

E outros lamentos que me representam as reflexões e sentimentos, seguem abaixo:

"Comentários sobre a agonia na demora de sabermos o nome da Juliana. Mulher, com 33 anos, ali naquele horário, são muitas. Alguns telefonaram para a própria Juliana, perguntando se não era ela. Nunca respondeu. A menção ao nome “Julie” rasga em abraços seus mais próximos. O calor denso da noite que se adentra, suor misturado a lágrimas dos homens, aos lamentos das mulheres.

"Plantam uma árvore na Praça d@ Ciclista. Juliana era do Pedal Verde. E outra árvore. E aplaudem com estapidos duros, não é uma celebração, é uma memória que se planta.

"Muitos fotógrafos e jornalistas. Entrevistam. “Quantas pessoas temos aqui?”, não para de gritar uma jornalista para desespero de um dos membros do BikeAnjo. Mais de mil. Na realidade, ali estavam esses mais-de-mil e os que estão sempre no pensamento: seus pais, seus amigos, seus colegas, ciclistas de toda grande São Paulo, ciclistas de todo o país. “É uma fatalidade”, diz outra jornalista emocionada, que recebe logo o comentário ríspido de quem está no asfalto sempre: “Fatalidade se fosse imprevisível. Neste caso é muito previsível: a CET não multa quem infringe a norma do Código de manter a distância de 1,5m do ciclista”. A rispidez logo se dissolve na fala embargada, complicado manter o discurso aprumado nessa hora. Um jornalista ainda me cochicha sentido, “acho que vou começar a pedalar”"
(texto da Ana Rüsche para as Pedalinas, leia completo aqui)

* * *
"Chama-se Pedal Verde o coletivo de ciclistas de que participava Juliana Dias. Surgiu há três anos, quando uma bicicletada homenageou Márcia Prado, que morreu em condições muito semelhantes às de Julie, a apenas trinta metros do desastre de hoje. Como dezenas de outros grupos em São Paulo, formou-se movido por um desejo particular. Mantém um site. Idenfica-se com um hino – paródia de Geraldo Vandré, intitulado Pedalando e Plantando. A cada mês, seus integrantes pedalam para plantar mudas de árvores brasileiras nativas. Um inventário revela embaúbas, guapuruxus, grumixamas, jaboticabeiras, cambucis, araçás e (para que não falte uma planta de nome indígena-asteca) abacateiros. Foram fincadas em pontos tão distantes, entre si, quanto a Praça Amundsen (nos sofisticados Altos de Pinheiros) e o Jardim Robru (no extremo Leste de São Paulo, próximo à Avenida dos Nordestinos e aos riachos que confluem às nascentes do Rio Tietê).

"Uma galáxia de coletivos semelhantes ao Pedal Verde começou a preparar uma Bicicletada Nacional, para a próxima terça-feira, 6/3. Tem página no Facebook e atividades já programadas, até o momento, em dezessete cidades. Assim como em São Paulo (onde 2 mil pessoas protestaram sexta-feira, debaixo de forte chuva), a resistência à ditadura do automóvel cresce em diversas metrópoles. Não está, ainda, na agenda dos partidos, governos de esquerda ou movimentos sociais tradicionais. Contagia gente como a bióloga Juliana. Alguns morrerão pela causa — mas é possível que ela acabe triunfando. Aconteceu antes, no Brasil e em outros cantos. Você já ouviu falar?"
(texto do Antônio Martins, leia completo aqui)

Um comentário:

stas_dayan disse...

um artigo muito interessante, Eu também sou apreciador deste חשפנים רקדניות Vou aguardar as suas publicações mais

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