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| por Seier, Flickr, CC |
[texto originalmente publicado no Outras Palavras, em 23/02/2012]
Na última semana, três
crimes de gênero contra mulheres foram pautados pelas TVs, rádios e
portais na internet. Alguns, mais do que outros, como sempre. O
julgamento de Lindemberg, que sequestrou a ex-namorada e é acusado de
também tê-la matado foi o mais noticiado. Era a repercussão de um fato
que a televisão cobriu largamente em 2008, afinal de contas.
Passou praticamente
despercebido, nesse furor, um crime do pior tipo possível. No município
de Queimadas, na Paraíba, o sobrinho do prefeito e alguns amigos
planejaram um estupro coletivo
como presente de aniversário a um amigo. Uma história de horror com
requintes de crueldade. No fim das contas foram seis mulheres estupradas
e, entre elas, duas assassinadas por reconhecerem os agressores –
mascarados simulando um assalto (leia muitos textos bons sobre esse caso
aqui).
Para completar a trilogia do horror, uma menina de 12 anos foi estuprada
dentro de um ônibus no Rio de Janeiro, com outras passageiras dentro,
cobrador e motorista. Sem precisar se esconder, sem precisar de nada
além de uma arma. O agressor não fez reféns, não ameaçou ninguém exceto a
criança. Entrou e saiu. Assim.
Esses três crimes tem algo
em comum: são crimes de gênero contra mulheres. São resultado de uma
cultura machista que objetifica a mulher. Somos um corpo, nestes termos,
e não seres humanos, pessoas. Na época do sequestro e assassinato de
Eloá Pimentel, a sobrevivente Nayara deu declarações comentando que, no
cativeiro, Lindemberg a chamava de “Barbie”. Nada mais ilustrativo do
que uma boneca pra evidenciar, novamente, esta relação.
Esta semana eu caminhava na
rua e passei em frente a uma feira sendo desmontada. Muitos homens e
poucas mulheres. A rua não estava vazia mas também não estava cheia. No
bairro da Vila Madalena, em São Paulo. Um dos trabalhadores da feira, ao
me ver passar, exclamou em (bem) alto e bom som: “Parabéns, hein,
princesa, assim sim…”. Ele devia estar a uns três metros de mim, se
muito. Eu já me aproximava do meu destino, uma farmácia que fica bem na
frente do local onde fui assediada. Não tive dúvidas e, em silêncio,
mostrei o dedo do meio pra ele com uma expressão no rosto que
provavelmente denotava todo o ódio que qualquer vítima de qualquer tipo
de assédio sente. Ele se surpreendeu: “Nossa, que é isso…”, disse. Eu
juntei minha raiva e gritei mais alto, para a feira toda escutar: “Não
estou aqui pra você ficar olhando, caralho”. Assim, com palavrão e tudo.
Entrei na farmácia. Quando saí ninguém ousou nem olhar pra mim.
Sei que nem sempre é o mais
sensato a fazer. Naquela circunstância, considerei que era apropriado. O
risco de uma ação violenta, sei muito bem, não depende da minha reação,
nem da roupa que eu uso e, aparentemente, nem da rua estar vazia ou
não. Os crimes de gênero que mencionei no início do texto têm
testemunhas, aconteceram na luz do dia e dois tiveram homens conhecidos
como agressores. Não há nada que me convença de que eu posso provocar ou
deixar de provocar um acontecimento destes. Nem vocês.
O assédio na rua, conhecido
de todas as mulheres brasileiras (ou quase todas), não chega perto do
sofrimento dos estupros e assassinatos que tomaram a mídia. Mas tem em
comum com eles, no pano de fundo, a ideia corrente de que nós mulheres
somos apenas corpos sem desejo próprio e, pior, disponíveis.
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PS: poucos dias depois de ter escrito este texto, uma mulher foi assassinada por reagir a uma cantada na rua durante o carnaval no Rio. Tremo de indignação, como diria Che, num mundo como este.


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