29 abril, 2012

Mulheres: corpos disponíveis? [repost Outras Palavras]

m.g. bindesbøll, thorvaldsen's museum, copenhagen, 1839-1847
por Seier, Flickr, CC

[texto originalmente publicado no Outras Palavras, em 23/02/2012]

Na última semana, três crimes de gênero contra mulheres foram pautados pelas TVs, rádios e portais na internet. Alguns, mais do que outros, como sempre. O julgamento de Lindemberg, que sequestrou a ex-namorada e é acusado de também tê-la matado foi o mais noticiado. Era a repercussão de um fato que a televisão cobriu largamente em 2008, afinal de contas.

Passou praticamente despercebido, nesse furor, um crime do pior tipo possível. No município de Queimadas, na Paraíba, o sobrinho do prefeito e alguns amigos planejaram um estupro coletivo como presente de aniversário a um amigo. Uma história de horror com requintes de crueldade. No fim das contas foram seis mulheres estupradas e, entre elas, duas assassinadas por reconhecerem os agressores – mascarados simulando um assalto (leia muitos textos bons sobre esse caso aqui).

Para completar a trilogia do horror, uma menina de 12 anos foi estuprada dentro de um ônibus no Rio de Janeiro, com outras passageiras dentro, cobrador e motorista. Sem precisar se esconder, sem precisar de nada além de uma arma. O agressor não fez reféns, não ameaçou ninguém exceto a criança. Entrou e saiu. Assim.

Esses três crimes tem algo em comum: são crimes de gênero contra mulheres. São resultado de uma cultura machista que objetifica a mulher. Somos um corpo, nestes termos, e não seres humanos, pessoas. Na época do sequestro e assassinato de Eloá Pimentel, a sobrevivente Nayara deu declarações comentando que, no cativeiro, Lindemberg a chamava de “Barbie”. Nada mais ilustrativo do que uma boneca pra evidenciar, novamente, esta relação.

Esta semana eu caminhava na rua e passei em frente a uma feira sendo desmontada. Muitos homens e poucas mulheres. A rua não estava vazia mas também não estava cheia. No bairro da Vila Madalena, em São Paulo. Um dos trabalhadores da feira, ao me ver passar, exclamou em (bem) alto e bom som: “Parabéns, hein, princesa, assim sim…”. Ele devia estar a uns três metros de mim, se muito. Eu já me aproximava do meu destino, uma farmácia que fica bem na frente do local onde fui assediada. Não tive dúvidas e, em silêncio, mostrei o dedo do meio pra ele com uma expressão no rosto que provavelmente denotava todo o ódio que qualquer vítima de qualquer tipo de assédio sente. Ele se surpreendeu: “Nossa, que é isso…”, disse. Eu juntei minha raiva e gritei mais alto, para a feira toda escutar: “Não estou aqui pra você ficar olhando, caralho”. Assim, com palavrão e tudo. Entrei na farmácia. Quando saí ninguém ousou nem olhar pra mim.

Sei que nem sempre é o mais sensato a fazer. Naquela circunstância, considerei que era apropriado. O risco de uma ação violenta, sei muito bem, não depende da minha reação, nem da roupa que eu uso e, aparentemente, nem da rua estar vazia ou não. Os crimes de gênero que mencionei no início do texto têm testemunhas, aconteceram na luz do dia e dois tiveram homens conhecidos como agressores. Não há nada que me convença de que eu posso provocar ou deixar de provocar um acontecimento destes. Nem vocês.

O assédio na rua, conhecido de todas as mulheres brasileiras (ou quase todas), não chega perto do sofrimento dos estupros e assassinatos que tomaram a mídia. Mas tem em comum com eles, no pano de fundo, a ideia corrente de que nós mulheres somos apenas corpos sem desejo próprio e, pior, disponíveis.
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PS: poucos dias depois de ter escrito este texto, uma mulher foi assassinada por reagir a uma cantada na rua durante o carnaval no Rio. Tremo de indignação, como diria Che, num mundo como este.

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