[texto originalmente publicado no Blogueiras Feministas, em 21/12/2011]
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| Florianópolis, arquivo pessoal |
Ela e o mar, o barco, o barqueiro.
Desconhecidos todos uns dos outros. Era ressaca brava, nem o colete
salva-vidas deveriam colocar evitando o risco de ficarem presos entre o
barco e o mar caso tombassem. Chegara pela trilha, com chuva, a barraca
enlameada. Não havia energia elétrica, os mosquitos não perdoavam. E
picavam, picavam, picavam. Ela não queria estar ali. Os amigos de
viagem; a meia-dúzia de gente na praia deserta lhe pareciam uma multidão
no Guarujá. Ela não queria estar ali. Tomou o barco, pagou o barqueiro
antecipado e disse “vou embora” sem destino certo, sem saber se mesmo os
ônibus ainda estariam passando àquela hora. Ela só foi.
Entre ela, o barqueiro, o barco e o mar,
havia a brisa. A brisa embraçava os cabelos, salgava a pele, terminava
qualquer visão estética perfeccionista de capa de revista. A brisa era o
oposto do padrão: liberdade.
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| São Paulo, arquivo pessoal. |
Quando viajava sozinha ela era livre.
Não tinha medo, dona de si. Almoçava se queria, quando queria; escolhia
trilha, ônibus, barco, trem, o que fosse, era ela que escolhia e só.
Comia bem, comia mal, ficava sem comer. Acordava cedo e tarde, tirava
sonecas vespertinas. Conhecia quem queria – o vendedor de brincos e
bijuterias, o músico de rua, as ciganas, faxineiras, prostitutas.
Buscava a paisagem ideal: hoje não quero ir ao Louvre. Não quero, aliás,
ir ao Louvre só para ir ao Louvre. O Louvre estará aí se eu decidir
voltar um dia. Caguei pro Louvre. Era quase isso.
De onde você vem, menina? Menina não que
ela era mulher. Vinha de uma família de mulheres, livres todas, que
viajam sozinhas. Reparava que “sozinha” tinha um sentido ruim quando lhe
diziam incomodados: “ah, mas você vai sozinha?”, tadinha dela, sem
companhia, a pobre!!! Mal sabiam tais desinformados que a solidão é uma
liberdade sem fim; a locomoção é outra e quando agrupadas temos
“viagem”. Viajava sozinha porque amava, viajava sozinha porque queria,
mas acima de tudo viajava sozinha porque podia.
Esquecem-se quase sempre de que a
liberdade é um direito. Direito garantido, nem sempre respeitado, mas
sempre conquistado ao suor de muita luta. Feministas muçulmanas em todo o
mundo lutam pelo direito de viajar sozinhas, sem seus maridos, pais ou
homens responsáveis (que podem, pasmem, ser até seus filhos). Pelo
direito à locomoção. À solidão. Liberdade.
Ela tomava o barco porque podia;
pegava o ônibus em seguida porque podia;
chegava numa cidade estranha porque podia;
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| Seul, arquivo pessoal. |
conversava nos bares, fazia amizades, aprendia. porque podia;
explorava paisagens e museus, roteiros, tempos, destinos, porque podia.
Como é que podia? Por que podia?
Podia porque, em solidão, não estava só.
Ela ali no barco, ela só no ponto de ônibus não era ela só. Ela
carregava outras. Séculos de mulheres atrás dela, estas que não puderam
sempre desfrutar tal privilégio. Ela não era só ela. Ela era eu, era
vocês, nós todas. Era a primeira, as seguintes e nunca a última
feminista.




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