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| Michael Dunn, Flickr, CC |
[texto originalmente publicado no Blogueiras Feministas, em 26/04/2011]
Há duas semanas falei aqui de MMA –
Mixed Martial Arts, um prática marcial recentemente esportivizada que é
muito comum entre lutadores brasileiros (diz-se por aí que o Brasil é a
nova potência do MMA) mas cujo público só começa a se expandir agora.
Naquele primeiro texto fiz uma crítica à generalização massiva e
estereotipação do público, de lutadores e do próprio esporte e seus
campeonatos (dos quais o UFC é o mais famoso e milionário hoje). Pois
bem, o assunto ainda é MMA por aqui, mas hoje vou mudar um pouco de
ares. Vamos falar de MMA feminino.
A primeira coisa que vem à minha cabeça
quando penso em MMA feminino é a divisão dos esportes em categorias por
sexo. Nunca li nada sobre o assunto e não tenho opinião formada, então
deixo pra vocês a nossa bela caixa de comentários: qual o argumento por
trás dessa divisão (que parece rolar em todos os esportes)? Não seria
possível categorias integradas no futebol, vôlei, basquete e até no MMA,
dado que inclusive em treinos de academias as mulheres e homens treinam
juntos? E aí, galéris?
A segunda coisa que me vem à cabeça é a Cris Cyborg,
minha “ídala” do MMA feminino e as dificuldades que andam a fazendo
quase desistir da própria carreira. Parece óbvio que entre estas
dificuldades estaria o preconceito contra mulheres lutadoras né? Mas
não, não é isso que desestimula a Cris. Só que pra entender esse quadro
vou precisar contar a historinha que contei no Mixed Martial Minas,
tentativa de blog que comecei para o público feminino que curte MMA mas
ainda não tive tempo de gerir legal pra lançar. Tudo começa com uma moça
chamada Gina Carano.
Gina Carano é estadunidense, ariana e
tem 28 anos. Foi campeã invicta dos pesos médios até sua luta com
Cyborg. Depois disso nunca mais lutou e fez alguns filmes bem ruinzinhos
pra TV e cinema nos EUA. Ao que tudo indica deve fazer uma volta
(triunfal?) em 2011 mas por enquanto não há muitos detalhes mais sobre
isso. Carano faz um estilo muito mais bonitona-mídia do que Cyborg, que
parece ser mais reservada. Se você jogar “Gina Carano” no Google as
primeiras imagens que aparecem são photoshopadas e sexualizadas e ela é
considerada uma “musa” do MMA por sua beleza além de seu talento. Vale
dizer que Carano é uma pioneira do MMA feminino e foi uma das primeiras
(se não “a” primeira) mulheres a receber treinamento tão bom quanto o
dos homens, então quando começou a lutar com a mulherada que era
supermarginalizada nas academias (o MMA feminino ainda não dá grana nem
patrocinadores nem tem muito público então poucos treinadores topam
treinar essas mulheres o que é realmente um absurdo – ai que eu penso,
será que uma categoria mista não seria muito melhor pra todo mundo?) ela
simplesmente detonou.
Até que veio a Cris. Cris Cyborg é
Cristiane dos Santos. Brasileira (o nome não engana!), tem 25 anos,
adora cor-de-rosa e lê a Bíblia (o que, aliás, quebra de uma vez só uns
dez preconceitos comuns sobre MMA, né?). Canceriana, começou a treinar
Muay Thai na Chute Boxe, em Curitiba, ainda na época de colégio. Em
quatro meses já passou a lutar MMA e logo começou uma série de vitórias
incríveis, estabelecendo uma sólida jovem carreira. Seu apelido “Cyborg”
é também usado pelo marido que, por sua vez, também é lutador (será
aliás que ela teria tanta visibilidade e traria tanta visibilidade pro
MMA feminino se seu marido não fosse da mesma profissão?). Cris veio num
ascendente, invicta exceto por sua primeira luta (assim como o Anderson
Silva de quem falei no último post), mostrando muito mais técnica e
atitude de lutadora do que era encorajado à maioria das mulheres até
então. Até a hora em que foi lutar com a campeã da época, Gina Carano.
Cris simplesmente detonou a Gina no ringue e o juiz chamou um nocaute
técnico (taí outra questão: será que os há menos nocautes não-técnicos
no MMA feminino, por conta de intervenção dos juízes ou tapouts –
desistência – das próprias lutadoras que estão perdendo?). Esta luta é
considerada a maior batalha do MMA feminino até hoje. É o que no futebol
chamaríamos de “clássico”, meio como deve se tornar a luta do Anderson
Silva com o Belfort em pouco tempo…
Como depois dessa luta a Gina parou de
lutar, a Cris passou um tempo derrotando uma galerinha mas o que se diz
no mundo do MMA hoje é que ela anda profundamente desestimulada. Por
quê? Porque simplesmente não há mulheres adversárias que a desafiem em
termos técnicos. E por que isso, Marília? Por que as academias não
treinam mulheres como treinam homens? E por que isso então? Oras, eu
vejo que é uma questão cíclica meio “quem veio primeiro o ovo ou a
galinha”: MMA feminino não tem público –> o público
geral de MMA é formado predominantemente por homens — > que poderiam
assistir MMA feminino mas preferem o masculino –> segundo eles porque
a qualidade das lutas é melhor –> isto porque as mulheres não são
treinadas a sério nas academias e a qualidade técnica acaba ficando a
desejar –> isto, por sua vez, porque os treinadores acham que não vai
dar prestigio gastar o tempo deles com MMA feminino –> porque o MMA feminino não tem público. Deu pra sacar o drama?
Então, extrapolando um pouco, eu digo
que a Cris Cyborg está mesmo, tadinha, numa sinuca de bico. Eu sou super
pró-MMA feminino, pra fomentar mesmo, ver a categoria crescer e tudo
mais. E acho que mais gente deveria abandonar seus preconceitos e ser
também. E fico pensando sobretudo em outras mulheres que foram pioneiras
em outras áreas. Caramba, pensem na primeira mulher médica que devia
ser rejeitada por vários pacientes? Na primeira mulher jornalista que
talvez tivesse que escrever sobre pseudônimo masculino? Na primeira
mulher advogada que talvez tenha perdido vários processos por
preconceito dos juízes>? Então, será que esse argumento da “falta de
técnica e treinamento” é suficiente pra justificar a falta de público do
MMA feminino?
Um momento emblemático de que esse pode
não ser o argumento mais plausível pra entender a ameaça de extinção do
MMA feminino, foi quando um repórter quis ser bonzão pra cima da Cris e
ela, minha heroína linda, revidou com classe e estilo, desmaiando o repórter com um golpe.
E aí, que estratégias nós feministas
podemos adotar para fomentar essas mulheres no MMA e outras mulheres em
outros esportes que são marginalizadas (veja as jogadoras do Santos, que
é time feminino de maior visibilidade do Brasil tirando a roupa pra
conseguir um espacinho na mídia esportiva)?


2 comentários:
Vc esqueceu de dizer que a Cris ganhou da Gina pq encheu o rabo de steroide.
olha, eu não sou expert (e pelo que me parece, nem você); mas a qualidade técnica da Cyborg nessa e em outras lutas não dá nem pra comparar com a Gina...
Agora, faça o favor de manter um mínimo de respeito à atleta em seus comentários, ou da próxima vez poderá não ser aprovado.
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