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Em 2004, cerca de quarenta organizações da sociedade civil, entre ONGs e movimentos sociais, uniram-se numa campanha chamada “Diálogos Contra o Racismo”. Foram produzidos artigos, cartazes e vídeos, disponíveis num website. O mote inicial da campanha é muito sagaz: “Onde você guarda o seu racismo?”. A resposta é ainda mais: “Não guarde, jogue fora”. A ideia é que não há racismo sem racistas. Quer dizer, além de uma série de políticas públicas pró-igualdade racial, ainda é preciso levar de fato as pessoas a refletirem sobre seu próprio racismo.
Por mais que ainda haja muito (e muito mesmo) o que avançar na luta anti-racista, é evidente que algumas pequenas vitórias já podem ser observadas. As mais significativas são, na minha opinião, o fato de muita gente hoje se envergonhar de ser racista e os desdobramentos dete fato: O CONAR puniu e retirou do ar (ainda que de forma limitada) propagandas de teor racista. Há cotas em diversas universidades brasileiras, mesmo que este ainda seja um assunto polêmico.
Não cabe, neste artigo, comparar historicamente machismo e racismo, nem colocar estas duas formas de opressão simbólica e concreta em diálogo. Sobre isto escreveram diversas autoras, como Verena Stolcke (leia “O enigma das Interseções: classe, raça, sexo, sexualidade”), Mariza Corrêa (leia “A invenção da mulata”) e Laura Moutinho (leia “Raça, sexualidade e gênero na identidade nacional”). Venho propor a leitores e leitoras um caminho semelhante ao caminho da campanha anti-racista mencionada.
Todas e todos nós somos parte de uma sociedade que tem o machismo em sua estrutura. Significa que somos machistas sem perceber, sem fazer de propósito, sem pensar. Significa que ter uma atitude machista é algo a que todas e todos estamos sujeitos – mesmo, acreditem se quiser, as militantes do feminismo (como eu). A diferença entre alguém anti-machista e alguém machista, portanto, acaba aparecendo na forma de lidar com essas atitudes individuais, num primeiro momento (deixo as políticas públicas para outro texto, outro dia).
Pessoas anti-machistas (e também feministas) estão dispostas a enxergar seu próprio machismo, autocriticar-se, policiar-se para não repetir atitudes ou preconceitos discriminadores. Já seres humanos machistas sustentam aquele comportamento, opinião, visão de mundo como o correto ou o melhor. Quer dizer, em alguns momentos, machistas somos tod@s. A questão é: o que fazemos com o nosso machismo?
Sugiro às leitoras e leitores colocarem para si mesmo este tema. Para ajudar elaborei, uma curta lista de questões (inspiradas no teste da Cynthia Semiramis – “Você é feminista?” ). As respostas “sim” indicam sinais de machismo cotidiano, seja você homem, mulher, feminista, de esquerda, militante, conservador, direitoso, libertário.
Eu poderia passar mais páginas e páginas elaborando frases e exemplos, mas nem eu nem vocês temos o dia todo pra isso. No fim das contas, espero que possam compartilhar nos comentários a impressão que tiveram ao responder o “teste”: e aí, vocês são, nas atitudes cotidianas, mais machistas ou menos do que imaginavam?
- Você acha que existe “mulher pra casar” e “mulher pra transar”?
- Quando você fica irritado/a com uma pessoa e ela é mulher, você usa os termos “vadia”, “biscate”, “puta”, como xingamento?
- Você tem menos consideração por mulheres quando a roupa delas é curta? (por exemplo, acha que ela deve ser “burra” ou nem chega a puxar papo)
- Você tem mais consideração por mulheres quando a roupa delas é curta? (por exemplo, acha que ela deve estar querendo dar pra alguém, ou vai conversar com ela por causa disso)
- Você acha engraçadas piadas que dizem alguma das seguintes coisas sobre mulheres: a) que elas são burras; b) que elas são traiçoeiras; c) que elas só estão atrás de grana; d) que elas devem cuidar das tarefas domésticas?
- Você acredita que a amizade entre mulheres é impossível?
- Você acredita que a amizade entre uma mulher e um homem é impossível sem que haja conotação sexual e atração em nenhum momento?
- Sendo homem, quando você lava a louça ou faz alguma tarefa doméstica, considera que está “ajudando” a mãe/esposa/irmãs/avó/etc? Sendo mulher, quando um homem lava a louça ou faz alguma tarefa doméstica, considera que ele está “ajudando” você?
- Você acha que a Lei Maria da Penha é um “privilégio” para as mulheres?
- Você acha que hoje o feminismo não é mais necessário porque as mulheres e homens já estão em condição de igualdade social?
- Você pensa que a igualdade social nunca vai existir porque homens e mulheres são diferentes biologicamente?
- Você acha que as mulheres dirigem mal?
- Você acha que as mulheres são melhores na realização de tarefas ou profissões que exigem “cuidado”?


5 comentários:
MUITO BOM!!! Não me considero feminista (não sou "militante" do movimento) mas sou certamente anti-machista e de uns tempos pra cá tenho o visto o quanto é importante que as mulheres abram os olhos, fiquem alerta para esses pequenos comportamentos cotidianos que abrem espaço para um machismo muito maior que escraviza e humilha a mulher sem que ela sequer, perceba. Achoq divulgar esse tipo de alerta é o que de melhor podemos fazer!
Toda mulher e homem machista há um pai e uma mãe.
Para a esmagadora maioria das mulheres, a igualdade só é exigido quando convém.
Caro Leandro, quando você diz "esmagadora maioria", está reproduzindo um machismo E um preconceito. Acho que você não entendeu muito bem esse post. Sugiro que releia.
Se sustenta essa "esmagadora maioria" ainda assim, te pergunto: você fez uma pesquisa? Um censo? Conhece todas as mulheres do mundo? Ah, tá. Só pra saber.
Mari, esses textos que vc cita, “O enigma das Interseções", “A invenção da mulata” e “Raça, sexualidade e gênero" pedem senha. Vc pode me passar??
ps: post delicioso me rendendo um debate mais delicioso ainda casamiga no face *.*
Oi, florzinha! Vá ao scholar.google.com e digite que estão todos disponíveis na web!!! <3
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